O tema desta semana
Não fez nada de grave. Não é má pessoa. Mas a reunião com ele pesa mais, o email demora mais a escrever, o café ao lado dele sabe a obrigação.
Há uma ideia que carregamos desde a escola: a de que as pessoas boas gostam de toda a gente. Depois crescemos, entramos numa empresa e descobrimos que há colegas com quem simplesmente não há química.
E aqui está o que ninguém nos disse: gostar não faz parte do contrato. Respeitar, sim.
O erro está em confundir as duas coisas. Quando confundimos, ou fingimos uma simpatia que nos esgota, ou afastamo-nos e deixamos o trabalho pagar o preço. Há uma terceira via, mais honesta e mais leve, que se constrói com três movimentos:
1
Separa a pessoa do padrão. Não gostas da pessoa, ou não gostas de duas ou três coisas que ela faz? Quase sempre é a segunda. E um comportamento concreto pode ser conversado. Uma antipatia total, não.
2
Procura os dez por cento. Em toda a gente de quem não gostamos há qualquer coisa que fazem bem. Encontrá-la não é fingimento, é profissionalismo. E muda a qualidade das interações mais depressa do que qualquer conversa difícil.
3
Mantém as trocas limpas. Curtas, claras, sem ironia, sem frieza demonstrativa. A cordialidade consistente é das ferramentas mais subestimadas da vida profissional.
As pessoas de quem não gostamos são, muitas vezes, as que nos mostram os nossos próprios limites.
Uma última nota, porque é verão e há tempo para pensar nisto: vale a pena perguntar o que é que aquela pessoa toca em nós. Às vezes a resposta ensina mais do que um ano de formações.
Boa semana. E se o nome que te veio à cabeça for o de alguém com quem trabalhas todos os dias, começa pelos dez por cento.
Nos últimos dias
Começou uma das maiores aventuras da minha vida. Estamos a reconstruir uma casa em Marmelar, no Alentejo, que vai abrir em junho de 2027 como residência criativa: a Casa Inteira.
E decidi contar tudo, semana a semana, porque uma obra é um projeto de gestão em tamanho real. Orçamentos que mudam, prazos que deslizam, decisões tomadas com informação incompleta. Liderar num estaleiro pede o mesmo que liderar em qualquer empresa: ouvir quem sabe mais do que nós, alinhar pessoas muito diferentes à volta de um prazo e manter a confiança quando o plano encontra a realidade. Tudo o que ensino em sala, vivido na primeira pessoa, com pó nas botas.
E sim, também aqui trabalho com pessoas que não escolhi pela química. Escolhi pela competência. O respeito faz o resto, tal como leste lá em cima.
Nesta viagem já contamos com um parceiro, a Cofidis, e a porta está aberta a organizações que queiram fazer parte desta história. O relato semanal está a acontecer no Instagram, em @asnove.
Para consumir
Livro
Getting Along: How to Work with Anyone (Even Difficult People)
O mapa mais prático que conheço sobre colegas difíceis, com oito arquétipos e estratégias para cada um. Se o nome que te veio à cabeça no início desta edição tem cargo de chefia, vai direto ao capítulo dois.
Filme
O Diabo Veste Prada
Revisitá-lo em modo de verão é descobrir que, afinal, é um filme sobre aprender com quem nos custa.
Podcast
WorkLife
Procura os episódios sobre colegas difíceis e confiança no trabalho. Ciência organizacional contada com leveza, ideal para as viagens de agosto.
Pessoa
Christine Porath
Passou vinte anos a estudar a civilidade no trabalho e a provar, com dados, que a cordialidade é uma vantagem competitiva. A pessoa certa para uma edição sobre trabalhar com quem não escolhemos.
Onde me podes encontrar
12 Set
The Shift, Lisboa
19 Set
Faz a Tua Mudança, Taguspark
24 Set
Happiness Camp, Porto
26 Set
Health Fest, Lx Factory, Lisboa
26 Set
Wanderlust, 14h30
10 Out
Game Changers Forum, MEO Arena