O tema desta semana
Recebi há pouco tempo uma carta de motivação de um potencial candidato a um lugar na minha empresa. Estava bem escrita, bem organizada e cheia das palavras certas, mas quando cheguei ao fim percebi que não sabia quase nada sobre a pessoa que a tinha enviado. Aquela carta podia ter seguido para qualquer empresa. Todos já recebemos documentos assim, com títulos, tópicos e um resumo executivo, que só à segunda leitura percebemos que não dizem nada de concreto. Os investigadores da BetterUp e do Stanford Social Media Lab deram um nome a este fenómeno, workslop. Em português, diria que é trabalho que parece feito: conteúdo produzido com IA que tem o aspeto de um trabalho acabado, mas não faz a tarefa avançar.
Os números do estudo ajudam a perceber a dimensão. Quatro em cada dez pessoas receberam trabalho deste tipo no último mês e estimam que ele representa cerca de 15% de tudo o que lhes chega. Cada caso leva, em média, quase duas horas a resolver. E mais de metade dos inquiridos admite que já enviou alguma coisa assim, o que quer dizer que quase todos já estivemos dos dois lados, sobretudo em dias de pressa.
Uso IA todos os dias, sobretudo para pesquisar dados e para arrumar ideias novas, e escrevi aqui há duas semanas que pode ser uma boa preparação para as conversas difíceis. Por isso, o que me interessa neste tema é perceber porque é que a mesma ferramenta ajuda umas pessoas e atrapalha outras. As pessoas que os autores chamam «pilotos», com mais sentido de iniciativa e mais otimismo, usam IA 75% mais do que as outras e são precisamente as que produzem menos workslop. A diferença está na forma como se usa, e isso aprende-se.
A neurociência explica boa parte da diferença. Num estudo do MIT Media Lab, 54 pessoas escreveram ensaios com a atividade cerebral monitorizada: umas sem ajuda, outras com um motor de pesquisa, outras com o ChatGPT desde o primeiro minuto. Quem escreveu com IA desde o início mostrou menos ligações cerebrais ativas e, minutos depois, 83% não conseguiam citar uma única frase do texto que tinham acabado de entregar. O resultado que me parece mais útil, porém, é outro: quem começou por pensar e escrever sozinho e só depois usou a IA mostrou mais memória e mais atividade nas áreas ligadas ao planeamento. Ou seja, a ordem faz diferença: quando pensamos primeiro, a ferramenta ajuda-nos a ir mais longe; quando começamos por ela, é ela que pensa por nós.
Há ainda uma segunda lição, vinda de uma experiência de Harvard com 758 consultores do Boston Consulting Group. Nas tarefas em que a IA é forte, quem a usou trabalhou 25% mais depressa e com 40% mais qualidade. Nas tarefas fora desse território, a probabilidade de chegar a uma resposta errada aumentou 19 pontos percentuais. A IA é muito boa em muitas coisas, mas cabe-nos a nós saber em quais.
Por isso, gostava de lhe propor quatro hábitos para levar já para esta semana:
1
Pense primeiro, peça depois. Antes de abrir a ferramenta, escreva em três linhas o que quer dizer, decidir ou recomendar. Pode ser num papel. Eu faço um brain dump todos os dias, um dos hábitos do método GTD que uso há anos: tiro da cabeça tudo o que lá anda e só depois decido o que fazer com isso. São dois minutos que garantem que o raciocínio é seu e que a IA trabalha a partir dele.
2
Use a IA como crítica, e não só como autora. Peça-lhe que encontre as fragilidades do seu argumento, a objeção que o cliente vai levantar ou o que falta no plano. A investigação da BetterUp mostra que quem sabe fazer boas perguntas, dar contexto e rever as respostas tira muito mais qualidade destas ferramentas.
3
Faça o teste das duas frases antes de enviar. Consegue dizer, em duas frases, o que o documento decide e o que pede a quem o recebe? Se não conseguir, o documento ainda não está pronto, por muito bem formatado que pareça.
4
Se lidera, mostre como se faz. Defina o que é um trabalho «pronto» na sua equipa, partilhe exemplos e use a IA à frente das pessoas, com critério. Segundo a BetterUp, quando o gestor tem uma mentalidade de piloto, a equipa tem até três vezes mais probabilidade de a adotar também. E as organizações que definem regras e casos de uso claros têm muito menos workslop do que as que se limitam a pedir «usem IA».
Antes de abrir a ferramenta, escreva em três linhas o que quer dizer.
Dentro de pouco tempo, vamos ter todos acesso às mesmas ferramentas. O que vai distinguir as pessoas e as equipas é aquilo que continua a depender de nós: o critério, o cuidado e a vontade de entregar alguma coisa que ajude de facto quem a recebe. Chama-se trabalho bem feito, e a IA, bem usada, ajuda-nos a fazer mais dele.
Boa semana. Esta semana, antes de abrir a ferramenta, escreva três linhas com aquilo que quer dizer. Depois peça à IA que as ponha à prova. Vai notar a diferença no que envia, e quem recebe também vai notar.
Nos últimos dias
Na quinta-feira estive no Happiness Camp, no Porto, um evento que acompanho desde a primeira edição e onde me sinto sempre em casa. Este ano liderei dois momentos.
O primeiro foi no palco Coverflex, com a talk The Inside Effect, sobre cultura organizacional, e com um convidado especial: o meu amigo João Francisco Lima, fundador do Mind Match e embaixador da Movember, uma pessoa que admiro muito. A ideia de partida é simples: nenhuma organização se muda de fora para dentro. Muda-se de dentro para fora, em três camadas. Primeiro a pessoa, que decide levantar-se do seu prego antes de doer demasiado. Depois a equipa, que precisa de ser um lugar onde se pode dizer «não sei», «errei» ou «não consigo»; quando a Google estudou as suas melhores equipas, o que as distinguia era precisamente a segurança psicológica. Foi nesta camada que entrou o João, com a analogia do desporto de alta competição e do papel do capitão de equipa. E só depois aquilo que deixamos no mundo, porque a marca que se vê lá fora é a cultura que se vive cá dentro. A cultura é aquilo que fazemos repetidamente, sobretudo quando estamos sob pressão.
O segundo momento foi a moderação da mesa «O Fim do Business as Usual», com a Lívia Martini (Wellhub), o Nuno Ferro (Experis, ManpowerGroup), a Ana Sanches (TP) e a Tânia Henriques (Cruz Vermelha Portuguesa). Quatro organizações muito diferentes, todas a mudar a forma como trabalham.
A Lívia trouxe as expectativas das pessoas. No último estudo da Wellhub, com mais de cinco mil trabalhadores em dez países, 89% dizem trabalhar melhor quando cuidam da saúde, e 90% tiveram sintomas de burnout no último ano. Cuidar do bem-estar das pessoas tem efeito direto no trabalho que fazem.
O Nuno trouxe o mercado de trabalho. Portugal continua no top 5 mundial da escassez de talento, com 82% dos empregadores a admitir dificuldade em contratar. E a estratégia mais escolhida para responder já não passa só por pagar mais: desenvolver quem já está dentro (33%) aparece à frente dos aumentos salariais (25%).
A Ana trouxe o olhar de quem cuida das pessoas numa empresa de experiência do cliente, onde a tecnologia entra em cada contacto e a diferença continua a estar em quem atende. Há anos que defende que a conciliação é um desafio de todos, e não apenas das mães.
A Tânia trouxe um contraponto muito bonito: uma organização que vive de voluntários que escolhem dar o seu tempo à missão, e que está a experimentar novas formas de mobilizar recursos, como uma plataforma onde qualquer pessoa ou empresa pode criar a sua própria campanha de angariação. Os voluntários ficam porque acreditam no que fazem, e as empresas têm muito a aprender com isso.
Se tivesse de resumir a mesa numa frase, seria esta: o fim do business as usual começa no mesmo sítio para todos, na forma como tratamos as pessoas.
Ao longo desta semana vou partilhar por aqui alguns dos momentos altos desta edição, porque vale a pena sublinhar o quão especial é este evento.
Para consumir
Livro
Co-inteligência
Um guia prático para trabalhar bem com a IA. Mollick propõe tratá-la como um colega imperfeito: rápido, útil e sempre a precisar de alguém que reveja o que faz. Sem medo e sem deslumbramento.
Documentário
Jiro Dreams of Sushi
Um mestre de sushi em Tóquio que passou a vida a aperfeiçoar o mesmo gesto. Uma lembrança bonita de que o cuidado se nota, mesmo quando ninguém o pede.
Podcast
HBR IdeaCast
Os dois investigadores que deram nome ao fenómeno explicam por que razão ele acontece e o que as lideranças podem fazer para o prevenir, a começar pelo que se pede às equipas.
Pessoa
Cal Newport
Há anos que alerta para a «pseudoprodutividade», o hábito de usar a atividade visível como prova de trabalho. Os livros dele são um bom lembrete de que o trabalho que importa raramente é o que faz mais barulho.
Onde me pode encontrar
7 Out
Lançamento do World Creativity Day 2027, Lux Lisboa Park Hotel, Lisboa
10 Out
10 Out
Game Changers Forum com Barack Obama, MEO Arena
31 Out
The Shift, edição especial, Lisboa. Informações e inscrições em sofia@asnove.pt
28 Nov
The Decision Room, Lisboa. Informações e inscrições em sofia@asnove.pt