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Newsletter «À Segunda.»

Edição n.º 28

Há conversas que não devíamos automatizar.


O tema desta semana

ChatGPT:

«Preciso de dizer a uma pessoa da minha equipa que o desempenho não está a corresponder ao esperado. Ajuda-me a escrever uma mensagem profissional, empática e assertiva.»

A IA responde em segundos. O texto é impecável. Educado, equilibrado, claro. Não ofende ninguém, não acusa, não deixa frases perigosamente penduradas e provavelmente até acaba com um «estou disponível para conversarmos».

Só há um problema.

Talvez aquela mensagem nunca devesse ter sido uma mensagem.

Estamos a descobrir uma quantidade extraordinária de coisas que a inteligência artificial pode fazer por nós. Escrever emails. Preparar apresentações. Resumir reuniões. Organizar ideias. Rever contratos. Construir propostas. Criar planos. Antecipar perguntas.

Mas há uma pergunta que me interessa cada vez mais: só porque podemos delegar alguma coisa, significa que devemos?

Tenho a sensação de que começámos por pedir à IA que nos poupasse tempo e, sem darmos muito por isso, começámos também a pedir-lhe que nos poupasse desconforto.

  • Aquele feedback que não sabemos como dar.
  • Aquela resposta que temos medo de escrever.
  • A conversa com alguém que está desiludido connosco.
  • O pedido de desculpa.
  • O conflito entre duas pessoas da equipa.
  • A decisão que sabemos que vai custar ouvir.
  • Aquele «isto não está a resultar» que ninguém quer dizer primeiro.

E é aqui que a eficiência deixa de ser apenas eficiência. Passa a ser evasão.

Há conversas que não devíamos automatizar.

Não porque a IA não consiga encontrar palavras melhores do que nós. Provavelmente consegue. Mas porque, em determinadas conversas, as palavras são apenas uma parte muito pequena daquilo que está a acontecer.

Há o tom. Há o silêncio depois de uma frase. Há aquilo que percebemos na cara do outro. Há uma pergunta que não estava prevista. Há alguém que precisa de sentir que não está a receber um texto perfeito, mas a falar com uma pessoa que assume o que tem para dizer.

E há, sobretudo, responsabilidade. É muito diferente dizer «a empresa decidiu que vamos avançar noutra direção» ou olhar para alguém e dizer «eu tomei esta decisão e quero explicar-te porquê». A segunda frase custa mais. Talvez seja precisamente por isso que vale mais.

Quanto mais difícil é uma conversa, maior é a tentação de melhorar as palavras. Às vezes, o que precisamos é de aumentar a coragem.

O que se pede à IA no trabalho · Microsoft Work Trend Index, 100 mil conversas, fev. 2026

Tomar decisões · 27,5%

O maior uso de todos. Não é escrever emails: é pedir ajuda para pensar, comparar opções e decidir.

Procurar informação · 13%

A IA já substituiu a pesquisa no motor de busca em boa parte do dia de trabalho.

Documentar · 11,7%

Relatórios, atas, resumos de reuniões. Aqui a máquina ganha-nos sem discussão.

Comunicar com a equipa · 8,4%

A mensagem que escreves ao teu colaborador já passa muitas vezes por aqui.

Resolver conflitos · 0,5%  ·  Dar coaching · 0,4%  ·  Construir relações · 0,3%

As conversas que custam continuam a ser, por enquanto, as que menos se entregam à máquina. A pergunta desta edição é se vamos conseguir manter assim.

A IA pode ajudar-nos a preparar uma conversa difícil. Pode ajudar-nos a organizar argumentos, antecipar reações, encontrar uma formulação menos agressiva ou perceber onde estamos a ser injustos. Tudo isso me parece extraordinariamente útil. Mas preparação e substituição não são a mesma coisa. Há uma linha que não devíamos atravessar sem perceber.

IA: copiloto ou esconderijo? · cinco pedidos reais, lidos ao contrário

«Escreve um feedback para um colaborador que não está a cumprir objetivos.»

O que a IA faz bem: separa factos de juízos e tira-te os adjetivos que iam magoar sem informar. O que se perde: a pergunta que essa pessoa te vai fazer a meio, «e tu achas que eu não sei?», e que muda o resto da conversa. Um texto não ouve. Em vez disso: pede à IA os três factos que sustentam o feedback e leva-os na cabeça. O resto diz-se olhando.

«Responde a este email porque estou irritada e não quero dizer uma coisa de que me arrependa.»

O que a IA faz bem: exatamente isto. Funciona como a gaveta onde se guarda o email durante uma noite, só que demora dez segundos. O que se perde: nada, desde que a resposta que sai seja tua e não a versão que só é educada porque não sente. Em vez disso: nada a mudar. Este é o copiloto a fazer o trabalho de copiloto.

«Escreve uma mensagem para terminar a colaboração com esta pessoa.»

O que a IA faz bem: a parte administrativa, prazos, condições, o que acontece a seguir. O que se perde: a única coisa de que essa pessoa se vai lembrar daqui a dez anos, que é a forma como soube. Ninguém guarda o texto; toda a gente guarda quem o disse e onde estava. Em vez disso: a decisão diz-se numa sala, em pessoa, em duas frases que assumes. O email, esse, pode ir depois com todos os detalhes que a IA quiser.

«Como posso pedir desculpa sem parecer fraca?»

O que a IA faz bem: dá-te uma versão que protege a tua imagem. O que se perde: o pedido de desculpa. Um pedido de desculpa que se protege a si próprio deixa de ser um pedido de desculpa e passa a ser uma nota de imprensa. Em vez disso: «Errei. Foi aqui. Lamento. O que preciso de fazer para corrigir?» Vinte palavras, sem prompt, e a força vem precisamente de não te teres protegido.

«Dá-me uma resposta diplomática para este conflito.»

O que a IA faz bem: mostra-te o argumento do outro lado com uma clareza que a tua irritação não deixava ver. O que se perde: a resolução. Um conflito entre duas pessoas resolve-se quando as duas dizem em voz alta o que estavam a evitar, e não há prompt que faça isso por elas. Em vez disso: usa a IA para preparar a pergunta que ainda não fizeste ao outro. Depois faz-lha.

Há um detalhe que a investigação já mediu e que devia mudar a forma como usamos a máquina nestas conversas. Quando alguém recebe um pedido de desculpa e fica a saber que foi escrito com ajuda de IA, considera-o menos autêntico e mostra-se menos disposto a perdoar. O mesmo acontece com mensagens de agradecimento: a perceção de calor humano de quem as envia desce. E aqui está a parte mais incómoda: na maior parte dos casos, quem recebe não desconfia de nada, a não ser que lhe digam. Ou seja, o esconderijo funciona. Ninguém dá por ele. A única pessoa que sabe que fugiste à conversa és tu. E é precisamente por isso que o critério não pode ser «vão notar?». Tem de ser outro.

O critério, para mim, cabe em três perguntas, antes de carregar em enviar. A outra pessoa vai ter perguntas quando ler isto? Então não é uma mensagem, é uma conversa. A decisão foi minha? Então a explicação também tem de ser. Sinto alívio por não ter de ver a cara dela? Então é essa cara que preciso de ver. Se a resposta a qualquer uma for sim, fecha o computador. Porque liderança também é isto: ficar na conversa quando seria muito mais confortável escondê-la atrás de um texto impecável.

Três propostas para esta segunda-feira:

1

Usa a IA antes da conversa, não em vez da conversa. Pede-lhe ajuda para organizar os teus pensamentos, para detetar pontos cegos, para tornar uma mensagem mais clara, para antecipar perguntas difíceis. Depois fecha o computador e fala com a pessoa. A tecnologia pode ajudar-nos a chegar melhor preparados. Não precisa de chegar em nosso lugar.

2

Faz uma pergunta antes de enviar. «Estou a escrever isto porque esta é realmente a melhor forma de comunicar ou porque não quero ter esta conversa?» É uma pergunta desconfortável. Tem a vantagem de funcionar.

3

Guarda uma pequena zona sem automação. Feedback importante. Reconhecimento genuíno. Pedidos de desculpa. Conflitos. Más notícias. Decisões que afetam alguém. Não porque tenham de ser conversas perfeitas. Precisamente porque não têm.

As relações humanas sempre tiveram hesitações, silêncios, palavras menos bonitas e frases que precisamos de começar outra vez. Talvez não devamos otimizar tudo isso. A IA vai tornar-nos mais rápidos em muitas coisas. Espero que não nos torne mais rápidos a fugir umas das outras.

Há conversas que não devíamos automatizar. Não porque a tecnologia tenha ido longe demais. Mas porque há lugares onde ainda precisamos de ser nós a aparecer.


Esta semana abri o semestre de uma farmacêutica, numa sessão de arranque com as equipas todas na mesma sala, depois de um verão em que cada uma andou no seu ritmo. Há uma coisa que acontece sempre em setembro nestas empresas: chega-se com objetivos novos, com cronogramas apertados e com a vontade genuína de fazer melhor, e esquece-se de fazer uma pergunta antes de arrancar: o que é que aprendemos até junho e ainda não dissemos em voz alta. Foi por aí que começámos. A energia mudou em vinte minutos, e o resto da manhã foi a construir compromissos com dono e data, que é a única forma de compromisso que sobrevive a outubro.

Um arranque de semestre feito a sério é o momento mais barato do ano para alinhar uma equipa: toda a gente está de volta, ninguém está ainda cansado e as decisões de setembro são as que duram. Se quiseres uma sessão de arranque para a tua equipa ou para a tua organização, escreve-me para sofia@asnove.pt.


Livro

Difficult Conversations

Stone, Patton e Heen · Harvard Negotiation Project (em inglês)

O livro que explica por que razão as conversas difíceis são difíceis: não pelas palavras, mas pelo que cada um acha que está em jogo sobre si próprio. Vinte e cinco anos depois, continua a ser o melhor manual para ficar na sala.

Filme

Her

Spike Jonze · 2013

Um homem que escreve cartas de amor por encomenda, para pessoas que já não sabem dizer o que sentem, apaixona-se por um sistema operativo. Treze anos depois já não parece ficção científica; parece uma segunda-feira.

Livro

Radical Candor

Kim Scott · 2017 (em inglês)

A tese de que o feedback que vale a pena é o que junta cuidado pessoal e desafio direto, dito cara a cara. É a zona sem automação desta edição, transformada em método.


19 Set

Faz a Tua Mudança, Taguspark

24 Set

Happiness Camp, Porto

26 Set

Health Fest, Lx Factory, Lisboa

26 Set

Wanderlust, 14h30

10 Out

Game Changers Forum, MEO Arena

28 Nov

The Decision Room, Lisboa

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Reflexões práticas sobre liderança, cultura e carreira, todas as segundas-feiras. As edições ficam em arquivo aberto: boas para ler, ótimas para partilhar com a equipa.

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