← Arquivo da newsletter

Newsletter «À Segunda.»

Edição n.º 32

O Presidente Obama disse quatro coisas que eu já esperava. E uma que não.


O tema desta semana

No sábado estive na MEO Arena, no meio de mais de dez mil pessoas que se levantaram para receber o 44.º Presidente dos Estados Unidos. O Barack Obama agradeceu em português, contou que teve na sua administração mais luso-americanos do que qualquer outra, e durante uma hora falou de liderança, de tecnologia e do que nos une. Eu fui ouvir com atenção de aluna e trouxe o caderno cheio. Esta edição é esse caderno, passado a limpo.

Antes das notas, os parabéns. Ao Miguel Pina Martins e a toda a equipa do Game Changers: trazer um antigo Presidente dos Estados Unidos a Lisboa, à sexta edição de um evento criado de raiz em Portugal, não se consegue com sorte. Consegue-se com anos de trabalho, de ambição assumida e de execução impecável. No país onde tantas vezes se diz que «não há condições», vocês criaram as condições. Fica registado, com admiração.

Agora, o caderno. Cinco notas que trago da plateia para as nossas segundas-feiras.

1

A velocidade. A transformação da inteligência artificial vai dar-se em dez anos, não em trinta ou cinquenta, e o Obama resumiu o desequilíbrio numa frase: «a tecnologia move-se muito depressa, mas os governos e as sociedades movem-se devagar». Nas empresas, o retrato repete-se em ponto pequeno: a ferramenta chega num trimestre, os hábitos levam anos a alcançá-la. Quem lidera já não pode esperar que o mundo estabilize para decidir; a adaptação deixou de ser um projeto com fim e passou a ser o próprio trabalho.

2

O que valorizamos. As profissões que a tecnologia não substitui são as que sempre pagámos pior: quem ensina e quem cuida. E o Obama não deixou a observação a meio: lembrou que são profissões historicamente desempenhadas por mulheres, e que essa é uma parte incómoda da explicação para a pouca consideração que lhes damos. O desafio que deixou foi o de reavaliarmos o que colocamos no topo. Dentro de cada empresa, a pergunta tem tradução direta: o que é que esta casa celebra, promove e paga?

3

A decisão. Perante a pergunta sobre os limites da inteligência artificial, o Obama foi claro: um modelo devolve a resposta esperada, mas pesar os fatores todos, com contexto e consequências, continua a caber ao julgamento humano. Confesso que sorri na cadeira: há um mês escrevi aqui que, quanto mais inteligentes se tornam as máquinas, mais humana precisa de ser a liderança. Ouvi-lo dizer o mesmo, naquele palco, não me deu razão; deu-me companhia. E companhia daquela é bem-vinda.

4

Os mais novos. Precisamos de lhes dar mais espaço, e ele provou-o com uma data: o Martin Luther King tinha 26 anos quando começou a mudar o mundo. Vinte e seis. Nas nossas organizações, quantas pessoas com essa idade falam nas reuniões onde as decisões se tomam? Costumam ser as que têm o olhar mais fresco sobre o que fazemos mal, e as últimas a quem o perguntamos. O Obama disse-o com humor: os líderes mais velhos nem sabem usar o telemóvel. Eu digo-o com agenda: esta semana, oiça primeiro quem chegou há menos tempo.

5

A pausa. Vinda de um homem que geriu o país mais poderoso do mundo, a autorização para abrandarmos tem outro peso. Nem tudo tem de ser rápido e otimizado; as coisas que mais valem na vida pedem tempo e presença, e ninguém se lembra, no fim, dos anos em que foi muito eficiente. Quem me acompanha sabe que esta causa é minha há muito tempo. Agora tenho uma testemunha de peso.

«We can all go slower.»

E, já agora, a revelação diplomática da tarde: os membros mais influentes da Casa Branca terão sido dois cães de água portugueses, o Bo e a Sunny. Afinal, Portugal já liderava na Sala Oval muito antes de sábado.

Das notas do meu caderno: uma coisa rara nos dias que correm, a vontade de que chegasse segunda-feira.


A semana foi de plateias e de palcos. No dia 7 estive no lançamento do World Creativity Day Portugal 2027, no Lux Lisboa Park, pela mão da minha amiga Marta Leite Castro, representante da World Creativity Organization em Portugal e, como sempre, irrepreensível a conduzir a conversa. E adorei ouvir a Cristiana Paiva, Global Managing Partner da JASON Beat, sobre o papel da criatividade nos negócios, nas organizações e nas cidades. Saí com uma ideia a trabalhar na cabeça: num mundo em mudança acelerada, a criatividade deixou de ser um dom de alguns e passou a ser uma competência de preparação para o futuro, das pessoas e dos territórios. Portugal prepara-se agora para receber o World Creativity Day 2027, e vale a pena acompanhar o movimento.

No dia 10, Dia Mundial da Saúde Mental, estive no Mind Match, do meu querido amigo João Francisco Lima. O que o João está a construir merece ser conhecido: uma plataforma que liga quem precisa de ajuda a psicólogos credenciados (são já mais de quatro centenas, por todo o país), ao serviço de uma visão maior, a de democratizar o acesso à saúde mental em Portugal e de a tratar como um cuidado contínuo, e não como um recurso de última hora. Há pessoas que transformam o que viveram numa missão para os outros. O João é uma delas, e inspira-me a seriedade com que o faz.

E no sábado sentei-me na plateia da MEO Arena, mas essa história já a contei lá em cima.


Tradição anual

As listas do Obama

Livros, filmes e música · todos os dezembros

Numa tradição que começou ainda na Casa Branca, o Obama publica todos os finais de dezembro as listas dos livros, filmes e músicas favoritos do ano. Transformaram-se num acontecimento cultural (há autores cuja vida muda por lá entrarem) e são uma mina para quem procura o que ler, ver e ouvir. A próxima chega daqui a dois meses; as anteriores encontram-se com uma pesquisa simples.

Livro

Uma Terra Prometida

Barack Obama

O primeiro volume das memórias presidenciais, para quem quiser perceber como pensa quem passou oito anos a decidir sob pressão máxima. Longo, sim; mas escrito como poucos políticos escrevem.

Livro

A Minha História

Michelle Obama

Continua a ser dos melhores livros que existem sobre identidade, carreira e a arte de não nos perdermos de nós próprios pelo caminho. Se ainda não o leu, inveja-se-lhe a estreia.


16 Out

Star Talks, sobre o mapa da empatia

20 Out

Global Talent Day, Lispolis, Lisboa

23 Out

Olimec Talks

31 Out

The Shift, edição especial, Lisboa. Informações e inscrições em sofia@asnove.pt

28 Nov

The Decision Room, Lisboa. Informações e inscrições em sofia@asnove.pt

Newsletter «À Segunda.»

Uma dose de liderança empática, no seu email.

Reflexões práticas sobre liderança, cultura e carreira, todas as segundas-feiras. As edições ficam em arquivo aberto: boas para ler, ótimas para partilhar com a equipa.

Newsletter À Segunda

Sem spam. Cancela-se com um clique.