Temporada 1 · A Cadeira da Ponta · Episódio 1
A partir de hoje, a À Segunda passa a ter temporadas. Esta é a primeira: «A Cadeira da Ponta», a história do primeiro ano de uma chefe, contada episódio a episódio, todas as segundas.
Episódio 1 · A primeira segunda-feira
Às 8h52 de segunda-feira, a Inês já tinha mudado a caneca do café de sítio três vezes.
A secretária era a mesma de sempre. Na sexta à tarde, o diretor tinha-a chamado ao gabinete, fechado a porta e dito a frase que ela esperava ouvir há dois anos: «A equipa é tua.» Ela agradeceu, sorriu, ligou à mãe a caminho de casa e passou o fim de semana a imaginar esta manhã.
Na imaginação, corria melhor.
Na vida real, o primeiro email da semana chegou às 8h54 e era do Rui. Seis anos na mesma equipa, os mesmos almoços às quintas, a mesma mesa do canto nos jantares de Natal. O Rui também se tinha candidatado ao lugar. O email dizia apenas: «Parabéns. Quando tiveres um minuto, temos de falar sobre a distribuição dos clientes.» Sem ponto de exclamação. A Inês leu-o quatro vezes à procura do tom e encontrou um diferente em cada leitura.
Às 9h30 era a reunião de equipa, a primeira. Tinha preparado um pequeno discurso. Ao abrir a porta, reparou em duas coisas. Alguém tinha deixado livre a cadeira da ponta, e ninguém se sentou nela até ela chegar. E a conversa sobre o jogo de domingo parou no segundo em que ela entrou.
Durante seis anos, a Inês tinha estado do lado de dentro daquelas conversas.
Falou sete minutos. Disse que nada ia mudar, que continuava a ser a mesma pessoa e que a porta estava sempre aberta. Toda a gente acenou. A Beatriz, a mais nova da equipa, tirou notas. O Rui olhou para o telemóvel duas vezes.
Ao almoço, pela primeira vez em seis anos, ninguém lhe perguntou se ia com o grupo. Não foi por maldade. Ninguém sabia se ainda se convidava a chefe.
Às 18h40, já sozinha, a Inês percebeu que tinha passado o dia inteiro a fazer o trabalho antigo (as propostas, os clientes dela) e que o trabalho novo ainda nem tinha começado. Percebeu também que tinha prometido na reunião uma coisa impossível. Nada ia ficar igual, porque ela já não era igual.
Fechou o portátil. O email do Rui continuava por responder.
«Nada vai mudar» é a primeira promessa de quase todos os chefes novos. E é a primeira que não conseguem cumprir.
O que eu diria à Inês
Inês, a promoção mais difícil não é a que se ganha a estranhos. É a que se ganha às pessoas com quem almoçávamos às quintas-feiras.
Linda Hill, professora em Harvard, acompanhou durante o primeiro ano dezanove gestores acabados de promover e contou o que viu no livro «Becoming a Manager». O que mais os surpreendeu foi perceberem que o cargo dá autoridade no papel, mas não dá influência. A influência conquista-se conversa a conversa, e demora mais do que se espera. Entraram a pensar que o trabalho era decidir e descobriram que era sobretudo construir confiança.
Para esta semana, gostava de lhe propor três coisas:
1
Responda ao Rui hoje, mas não por email. Marque uma conversa a dois, fora da sala de reuniões, e diga em voz alta o que os dois sabem: que ele também queria o lugar. O elefante na sala fica muito mais pequeno quando alguém lhe chama pelo nome.
2
Troque o «nada vai mudar» por «isto vai mudar, isto não». As pessoas não precisam que tudo fique igual. Precisam de saber o que passa a contar.
3
Reserve na agenda uma hora por dia para o trabalho novo. Se não o fizer, o trabalho antigo come-lhe o dia inteiro, porque é o que sabe fazer bem.
Quanto ao almoço, convide-se. Durante umas semanas, é a chefe que tem de perguntar se pode ir.
No próximo episódio
O Rui queria o lugar.
A Inês senta-se finalmente com ele. A conversa começa melhor do que esperava, até ao momento em que o Rui pede para ficar com os dois maiores clientes da equipa.
Na cadeira da Inês
São os clientes que faturam mais e que até agora eram da Inês. O Rui diz que é uma forma justa de compensar o lugar que não teve, e espera uma resposta.
O que faria no lugar da Inês?
1
Digo-lhe que não, ali mesmo.
A decisão é minha, e quanto mais cedo a tomar, melhor.
2
Proponho-lhe outro desafio.
Um projeto novo, com visibilidade, que seja só dele.
3
Dou-lhe os clientes.
Mantenho a paz e a equipa unida neste arranque.
4
Defino critérios primeiro.
Olho para os números e decido com regras iguais para todos.
Com um clique, fica logo a saber o que os outros leitores decidiram.
A escolha que fizer não aparece a mais ninguém: os outros leitores só veem as percentagens.
No Episódio 2 conto-lhe o que a Inês decidiu, e o que a sua escolha diz sobre o seu estilo de liderança.
Onde me pode encontrar
14 Nov
Workshop Descomplica (aplicado a equipas), Lisboa
Por WhatsApp, num clique, ou por email para sofia@asnove.pt