O tema desta semana
«Olá a todos. No seguimento do nosso alinhamento, e para endereçarmos os pontos em aberto, sugiro agilizarmos uma call rápida para fazermos um ponto de situação e garantirmos que estamos todos na mesma página.» Trinta e três palavras. Zero decisões. Nenhum responsável, nenhum prazo, nenhum compromisso. E, no entanto, quem escreveu isto saiu do email com a agradável sensação de ter trabalhado.
Bem-vindos de volta ao corporatês, a língua oficial da rentrée. Depois de um agosto em que falámos como gente (com «vou à praia» e «como está a tua mãe?»), setembro devolve-nos o alinhar, o endereçar, o agilizar, o «faz sentido» e o inevitável «vamos pôr um pin nisto». Podíamos rir-nos apenas, e vamos rir um bocadinho, prometo. Mas antes quero dizer-lhe o que penso depois de 25 anos a ouvir esta língua por dentro das empresas: o corporatês não é um tique. É um esconderijo.
Repare na diferença. «Eu decido isto até sexta» tem um dono, uma ação e uma data; se falhar, sabe-se quem falhou. «Vamos alinhar para endereçar» não tem nada disto, e é exatamente por isso que se diz. A linguagem vaga existe para diluir a responsabilidade: quanto mais abstrato o verbo, mais repartida a culpa. Não falamos assim porque trabalhamos em empresas; falamos assim porque comprometer-se assusta, e o corporatês é um anestésico local aplicado diretamente sobre o compromisso.
Quem fala claro compromete-se. É por isso que tão pouca gente fala claro.
Dicionário de bolso · corporatês para português
«Vamos alinhar isto offline.»
Não quero discutir isto à frente destas pessoas todas.
«É um desafio interessante.»
É um problema, e ainda estou a decidir de quem.
«Vamos pôr um pin nisto.»
Este assunto acaba de morrer. A cerimónia foi esta.
«Faz sentido.»
Ouvi-te. Não confundir com «concordo», e muito menos com «vou fazer».
«Vamos escalar o assunto.»
Vou contar ao teu chefe.
«Ponto de situação.»
A reunião onde se descobre porque é que nada avançou desde a última reunião.
«Vou fazer a ponte.»
Vou reencaminhar o email sem o ler.
«É um quick win.»
É trabalho teu, para amanhã, sem orçamento e sem glória.
«Vamos pensar fora da caixa.»
Vamos ter as ideias do costume, mas num offsite com post-its.
«Fica em cima da mesa.»
Fica em cima da mesa. Para sempre.
O humor é fácil e toda a gente tem um dicionário destes na cabeça. A parte séria é esta: uma equipa que fala vago decide vago. Os projetos que «ficam alinhados» sem dono nem data são os mesmos que reaparecem em novembro, intactos, na reunião de balanço. E quem lidera define a língua da sala: se o chefe endereça, toda a gente endereça; se o chefe diz «eu trato disto até quarta», a clareza torna-se o dialeto da equipa. Clareza é coragem em forma de gramática.
Três propostas para esta segunda-feira:
1
Faça a tradução simultânea. Na próxima reunião, sempre que ouvir (ou se apanhar a dizer) um «vamos alinhar», faça as três perguntas que o corporatês evita: quem decide, o quê, até quando. Vai sentir a temperatura da sala mudar. É esse desconforto que estava a ser anestesiado.
2
Audite um email antes de enviar. Escolha um, releia-o, e troque um verbo corporativo por um verbo com dono: «endereçar» por «eu resolvo», «agilizar» por «faço até quinta», «alinhar» por «decidimos na reunião de amanhã». Um email de cada vez, a sua escrita volta a ter assinatura.
3
Institua os dois minutos finais. Toda a reunião da sua equipa passa a acabar com uma pergunta em português: «o que fica decidido, quem faz, e até quando?». Se a resposta não couber em três frases, a reunião ainda não acabou; só mudou de língua.
Este dicionário está, obviamente, incompleto. Cada empresa tem o seu dialeto, e há entradas que só quem lá trabalha conhece. Podemos construí-lo juntos: se souber de uma entrada que falta, deixe-a nos comentários, com tradução incluída. Quem sabe não sai daqui, um dia, o Dicionário Completo de Corporatês, edição anotada. Seria o primeiro dicionário do mundo escrito inteiramente por sobreviventes.
Nos últimos dias
A semana passada começou dentro de portas: fiz o kick off de um programa para uma equipa de managers de um dos maiores grupos de retalho do país, sobre atitude mobilizadora. Levei comigo três objetos: um prego, um pato e uma folha. Quem esteve na sala já sabe porquê; para quem não esteve, ficam as três mensagens que eles carregam.
O kick off em três objetos · atitude mobilizadora
O prego
Coragem para mudar. Mobilizar começa por sair da inércia: mexer no que está pregado no mesmo sítio há demasiado tempo, a começar pelos hábitos de quem lidera.
O pato
Foco, disciplina e excelência. Por baixo de toda a calma aparente há alguém a remar, todos os dias. A excelência raramente faz espetáculo; faz é consistência.
A folha
Comunicação e empatia. Uma equipa mobiliza-se quando a mensagem chega limpa: falar claro, escutar a sério. Não há atitude mobilizadora com linguagem desmobilizada, e sim, a conversa desta edição também esteve naquela sala.
Se quiser um programa ou uma sessão para a sua equipa de managers, escreva-me para sofia@asnove.pt.
Para consumir
Ensaio
Politics and the English Language
Escrito há oitenta anos e podia ter sido escrito sobre a sua caixa de correio: Orwell mostra como a linguagem vaga serve para defender o indefensável e evitar o compromisso. O avô de tudo o que esta edição diz, em vinte páginas.
Série
Severance
A distopia de escritório onde o corporatês atingiu a perfeição: frases polidas, calmas e absolutamente vazias de humanidade. Vê-se como thriller e relê-se como espelho.
Filme
Office Space
O clássico da sátira de escritório, com os oito chefes que dizem exatamente a mesma frase sobre os relatórios TPS. Vinte e sete anos depois, continua a ser o documentário mais engraçado alguma vez feito por engano.
Onde me podes encontrar
19 Set
Faz a Tua Mudança, Taguspark
24 Set
Happiness Camp, Porto
26 Set
Health Fest, Lx Factory, Lisboa
26 Set
Wanderlust, 14h30
10 Out
Game Changers Forum, MEO Arena
28 Nov
The Decision Room, Lisboa