O tema desta semana
«Já trato disso quando tiver um bocadinho.» Dizemos esta frase muitas vezes, e quase sempre sobre a coisa errada. Respondemos ao email em dois minutos, ao comentário em cinco, à mensagem do grupo antes de ela acabar de chegar. Ao corpo, respondemos quando ele deixa de nos dar alternativa.
Nas últimas semanas, a minha agenda teve menos palcos e mais salas de espera: urgências, consultas, exames. Não vou entrar em pormenores, nem fazem falta aqui. Conto-o porque foi nessas salas que percebi que o corpo me andava a pedir atenção há algum tempo, e que eu tinha sempre qualquer coisa mais urgente para fazer primeiro.
Quem me acompanha por aqui terá reparado que desapareci. Não publiquei nada, não comentei nada. Não foi uma estratégia nem uma desintoxicação digital com nome bonito; foi apenas o que fazia sentido. E descobri que o mundo continuou a girar sem a minha opinião sobre ele. O que importava estava noutro lado, e não perdi nada.
Sei que para muitas pessoas isto não é assim tão simples. O medo de ficar de fora tem nome, FOMO, e anda de mãos dadas com o uso compulsivo das redes: a sensação de que, se não estivermos lá, alguma coisa acontece sem nós. Acontece, claro. E, na maior parte das vezes, continua lá à nossa espera quando voltamos.
Ao corpo, respondemos quando ele deixa de nos dar alternativa.
O burnout também tem nome, e a Organização Mundial da Saúde reconhece-o desde 2019: exaustão, distância em relação ao trabalho e a sensação de que já não fazemos nada bem. Raramente chega de repente. Antes dele vêm sinais discretos, como o sono que não descansa, a dor de cabeça que passa a fazer parte da rotina, a impaciência com coisas pequenas ou o aperto no peito ao domingo à noite. São fáceis de ignorar, precisamente porque não fazem barulho.
Se há uma consulta que anda a adiar, talvez esta semana seja uma boa altura para a marcar. As notificações sabem esperar.
Volto aos poucos, ao meu ritmo. Entretanto, confirmei que o LinkedIn sobreviveu perfeitamente sem mim, o que é ao mesmo tempo um alívio e uma pequena ofensa.
Para consumir
Para os dias em que o melhor plano é não ter plano.
Série
Shrinking
Um terapeuta em luto decide deixar de fingir e começa a dizer aos pacientes exatamente o que pensa. Ri-se muito e, sem dar por isso, fica a pensar na forma como cuidamos (ou não) de nós e dos outros.
Série
Slow Horses
Espiões britânicos postos de parte, um chefe insuportável e brilhante (Gary Oldman, no seu melhor) e episódios que acabam sempre no sítio errado para ir dormir. Fica o aviso.
Filme
Perfect Days
Um homem que limpa casas de banho públicas em Tóquio e vive uma rotina feita de pequenas coisas: a luz entre as árvores, uma cassete no carro, um livro antes de dormir. É o filme mais calmo que vi nos últimos anos, e um dos que mais me ficou.
Livro
Rest
Um livro que trata o descanso como uma competência, e não como um prémio para quando tudo estiver feito. Com investigação e com histórias de cientistas e escritores que trabalhavam menos horas do que imaginamos e produziam mais do que quase todos nós.
Livro
Stolen Focus
Uma investigação sobre o que anda a acontecer à nossa atenção e sobre o papel que os ecrãs têm nisso. Lê-se como uma reportagem e deixa vontade de pousar o telemóvel umas horas.
Podcast
Hidden Brain
Episódios sobre os mecanismos invisíveis que guiam as nossas escolhas, contados com histórias e com investigação. Ideal para ouvir de olhos fechados, no sofá ou numa sala de espera.