← Arquivo da newsletter

Newsletter «À Segunda.»

Edição n.º 34

Se em 48 horas não disser nada, é porque está bem.


O tema desta semana

No início deste ano, num dos grupos de formação que tive o privilégio de facilitar, partilhei uma das histórias que mais me influenciaram na vida (li-a em «Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas», de Dale Carnegie):

A 14 de julho de 1863, Abraham Lincoln sentou-se a escrever ao general George Meade. Dias antes, Meade tinha vencido em Gettysburg, mas deixara o exército de Lee retirar-se para sul, e Lincoln estava convencido de que essa fuga ia prolongar a guerra. A carta é dura. O Presidente escreve que o general não percebe a dimensão da desgraça que foi deixar Lee escapar.

A carta nunca saiu da Casa Branca. No envelope, Lincoln deixou uma nota.

No envelope, pela mão de Lincoln

«Ao general Meade, nunca enviada nem assinada.»

Washington · 14 de julho de 1863

A historiadora Doris Kearns Goodwin conta que era um hábito dele. Quando estava furioso, escrevia aquilo a que chamava uma «carta quente», guardava-a até as emoções arrefecerem e, muitas vezes, nunca a mandava.

Há, no entanto, um pormenor que a história costuma deixar de fora. As críticas acabaram por chegar a Meade por outra via, num telegrama do general Halleck, e Meade respondeu a pedir a demissão (que foi recusada). Lincoln poupou-o às palavras escritas a quente, mas nunca teve com ele a conversa a frio.

Cento e sessenta anos depois, Melinda French Gates descreveu uma prática que resolve as duas metades do problema. Quando não está satisfeita com um trabalho, a pessoa ouve-a no prazo de 48 horas. Não o diz de imediato, porque precisa de tempo para pensar e, se estiver zangada, para se acalmar, coisa que assume como responsabilidade sua. Se o prazo passar sem uma palavra, quem fez o trabalho sabe que está bem feito, e ninguém chega à avaliação de desempenho com surpresas.

A primeira metade da regra protege a equipa da nossa pior versão. A segunda protege-a do nosso silêncio, que costuma ser lido sempre da pior maneira.

A ciência ajuda a perceber porque é que o prazo funciona. O investigador George Loewenstein, da Carnegie Mellon, estudou aquilo a que chamou o hiato de empatia entre o quente e o frio: quando estamos calmos, subestimamos o peso que a raiva, o cansaço ou a fome têm nas nossas decisões, e quando estamos a quente temos muita dificuldade em imaginar como vamos ver as coisas depois. Um dia ou dois chegam para mudar de estado. Uma semana já chega para a conversa nunca acontecer.

O silêncio só tranquiliza quando as pessoas sabem o que ele quer dizer.

Ficam algumas ideias para experimentar esta semana:

1

Escreva a carta quente. Num caderno ou num rascunho sem destinatário. Tirar as palavras da cabeça ajuda a perceber o que é facto e o que é irritação.

2

Marque a conversa para o dia seguinte, com dia e hora, em vez de a deixar para quando houver tempo.

3

Diga à equipa que regra usa. Uma regra que só o líder conhece não tranquiliza ninguém.

4

Leve à conversa o que aconteceu e o que precisa daqui para a frente. O que sentiu no momento fica na carta.

Das notas do meu caderno: a carta mais útil que Lincoln escreveu foi a que ficou na gaveta.


Livro

Thanks for the Feedback

Douglas Stone e Sheila Heen · (em inglês)

Escrito por dois professores do Harvard Negotiation Project, olha para o feedback do lado de quem o recebe. Explica porque é que uma crítica justa nos pode parecer injusta, e ajuda quem lidera a perceber o que acontece do outro lado da mesa nas 48 horas seguintes.

Podcast

Leaders With Francine Lacqua

Bloomberg

Procure o episódio com a Melinda French Gates, de março deste ano. É lá que ela explica a regra das 48 horas, e vale a pena ouvi-la contada por quem a pratica há décadas.

Filme

Lincoln

Steven Spielberg · 2012

Daniel Day-Lewis num Lincoln que pensa antes de falar e que usa as histórias para dizer o que não pode dizer de frente. Depois desta edição, vai ver o filme com outros olhos.


14 Nov

Workshop Descomplica (aplicado a equipas), Lisboa

Inscrever-me

Por WhatsApp, num clique, ou por email para sofia@asnove.pt

Newsletter «À Segunda.»

Uma dose de liderança empática, no seu email.

Reflexões práticas sobre liderança, cultura e carreira, todas as segundas-feiras. As edições ficam em arquivo aberto: boas para ler, ótimas para partilhar com a equipa.

Newsletter À Segunda

Sem spam. Cancela-se com um clique.