O tema desta semana
No início deste ano, num dos grupos de formação que tive o privilégio de facilitar, partilhei uma das histórias que mais me influenciaram na vida (li-a em «Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas», de Dale Carnegie):
A 14 de julho de 1863, Abraham Lincoln sentou-se a escrever ao general George Meade. Dias antes, Meade tinha vencido em Gettysburg, mas deixara o exército de Lee retirar-se para sul, e Lincoln estava convencido de que essa fuga ia prolongar a guerra. A carta é dura. O Presidente escreve que o general não percebe a dimensão da desgraça que foi deixar Lee escapar.
A carta nunca saiu da Casa Branca. No envelope, Lincoln deixou uma nota.
No envelope, pela mão de Lincoln
«Ao general Meade, nunca enviada nem assinada.»
Washington · 14 de julho de 1863
A historiadora Doris Kearns Goodwin conta que era um hábito dele. Quando estava furioso, escrevia aquilo a que chamava uma «carta quente», guardava-a até as emoções arrefecerem e, muitas vezes, nunca a mandava.
Há, no entanto, um pormenor que a história costuma deixar de fora. As críticas acabaram por chegar a Meade por outra via, num telegrama do general Halleck, e Meade respondeu a pedir a demissão (que foi recusada). Lincoln poupou-o às palavras escritas a quente, mas nunca teve com ele a conversa a frio.
Cento e sessenta anos depois, Melinda French Gates descreveu uma prática que resolve as duas metades do problema. Quando não está satisfeita com um trabalho, a pessoa ouve-a no prazo de 48 horas. Não o diz de imediato, porque precisa de tempo para pensar e, se estiver zangada, para se acalmar, coisa que assume como responsabilidade sua. Se o prazo passar sem uma palavra, quem fez o trabalho sabe que está bem feito, e ninguém chega à avaliação de desempenho com surpresas.
A primeira metade da regra protege a equipa da nossa pior versão. A segunda protege-a do nosso silêncio, que costuma ser lido sempre da pior maneira.
A ciência ajuda a perceber porque é que o prazo funciona. O investigador George Loewenstein, da Carnegie Mellon, estudou aquilo a que chamou o hiato de empatia entre o quente e o frio: quando estamos calmos, subestimamos o peso que a raiva, o cansaço ou a fome têm nas nossas decisões, e quando estamos a quente temos muita dificuldade em imaginar como vamos ver as coisas depois. Um dia ou dois chegam para mudar de estado. Uma semana já chega para a conversa nunca acontecer.
O silêncio só tranquiliza quando as pessoas sabem o que ele quer dizer.
Ficam algumas ideias para experimentar esta semana:
1
Escreva a carta quente. Num caderno ou num rascunho sem destinatário. Tirar as palavras da cabeça ajuda a perceber o que é facto e o que é irritação.
2
Marque a conversa para o dia seguinte, com dia e hora, em vez de a deixar para quando houver tempo.
3
Diga à equipa que regra usa. Uma regra que só o líder conhece não tranquiliza ninguém.
4
Leve à conversa o que aconteceu e o que precisa daqui para a frente. O que sentiu no momento fica na carta.
Das notas do meu caderno: a carta mais útil que Lincoln escreveu foi a que ficou na gaveta.
Para consumir
Livro
Thanks for the Feedback
Escrito por dois professores do Harvard Negotiation Project, olha para o feedback do lado de quem o recebe. Explica porque é que uma crítica justa nos pode parecer injusta, e ajuda quem lidera a perceber o que acontece do outro lado da mesa nas 48 horas seguintes.
Podcast
Leaders With Francine Lacqua
Procure o episódio com a Melinda French Gates, de março deste ano. É lá que ela explica a regra das 48 horas, e vale a pena ouvi-la contada por quem a pratica há décadas.
Filme
Lincoln
Daniel Day-Lewis num Lincoln que pensa antes de falar e que usa as histórias para dizer o que não pode dizer de frente. Depois desta edição, vai ver o filme com outros olhos.
Onde me pode encontrar
14 Nov
Workshop Descomplica (aplicado a equipas), Lisboa
Por WhatsApp, num clique, ou por email para sofia@asnove.pt